Problemas nos empréstimos a particulares

Como todos sabemos, atravessamos um período de “crise financeira”, que se reflete, como é natural, em quase todos os sectores de atividade. Claro que no meio de tudo isto, existe um certo “exagero anunciado”, aproveitando-se disso as empresas com maior poder financeiro, conseguindo mesmo lucros absurdamente exorbitantes, atendendo à situação atual em que vivemos.

emprestimos particulares

As pequenas e médias empresas vão-se aguentando, dia-após-dia, algumas com grandes dificuldades em pagar os salários aos seus empregados e outras acabam mesmo por fechar, porque não aguentam a elevada carga fiscal e outras despesas (salários), algumas delas inesperadas, devido á diminuição do fluxo de trabalho. O cidadão comum vai tentando sobreviver da melhor forma possível, com baixos salários e deparando-se, ao mesmo tempo, com preços elevadíssimos de produtos e serviços de primeira necessidade, no entanto, lá vai aguentando porque afinal a vida não pára e temos de continuar a preparar o nosso futuro, ou pelo menos o futuro dos nossos filhos.

As pessoas continuam a precisar de comprar casa, carro, eletrodomésticos e outros bens essenciais para poderem ter uma vida com o mínimo de conforto possível, por isso temos de ser otimistas e encarar as dificuldades de peito aberto e, o mais importante, fazer de tudo para as resolver.

Das muitas situações que se deparam no nosso quotidiano, relacionadas com empréstimos junto da banca, houve uma em particular que me chamou à atenção, porque fui eu que geri o processo (sou consultor financeiro). Um determinado cliente veio ter comigo para que lhe tratasse de um empréstimo para fazer tratamento aos dentes, isso mesmo, aos dentes. Pretendia um empréstimo de 10.000€. O cliente já havia tentado por conta própria em vários bancos mas sem qualquer êxito.

Uma das dificuldades com que ele se deparou foi o fator Tempo. Este homem é emigrante na Bélgica, vindo a Portugal duas ou três vezes por ano, com períodos muito curtos, portanto não tinha tempo para tratar do seu empréstimo. Outro fator foi a falta de conhecimento da “linguagem” bancária. Não é que seja muito difícil, no entanto, certos termos técnicos são difíceis de compreender, tornando-se complicado para alguém que nada conhece do mundo financeiro e tem sempre a ideia de que poderá ser enganado (ideia errada). De referir que este cliente é solteiro e mais à frente vão compreender porque estou a dizer isto.

Comecei a tratar do processo dele, reunindo todos os documentos necessários, mas deparei-me com um problema. Como se trata de um emigrante e não tinha muito tempo para fazer as coisas como deve ser, como já tinha referido, havia necessidade de ter um representante seu em Portugal que “tratasse” dos seus assuntos, junto com uma autorização assinada e reconhecida no notário (para que esta seja válida). O cliente escolheu a irmã para sua representante ou mediadora, tendo ela, assim, autorização total para fazer o necessário na obtenção do seu empréstimo. Sendo assim, sempre que eu precisava de algum documento ou de uma assinatura para o processo, teria de falar com a irmã sem perda de tempo, pois este era precioso e quase de imediato o conseguia.

No entanto, mais um problema surgiu. Embora já tivesse reunido a maioria dos documentos, estes ainda não estavam completos, faltava sempre qualquer coisa. Mais um grave erro que os clientes costumam cometer no momento em que precisam de recorrer aos bancos para “pedir” dinheiro. Mesmo sendo alertados para o facto de haver necessidade de juntar toda a documentação o mais breve possível e só depois levar o processo há banca, os clientes acabam sempre por atrasar e levar muito tempo, pois não têm a noção do que poderá acontecer nas instituições bancárias. As regras mudam constantemente devido à conjuntura atual.

De facto, por causa deste erro, o cliente acabou por não conseguir o empréstimo que tanto desejava. Os leitores podem perguntar: -O que isso tem a ver? Simples. Enquanto se andou num impasse para conseguir os documentos todos, aconteceram algumas alterações, pelo menos na instituição bancária que oferecia as melhores condições de financiamento e que, alteraram as regras do “jogo”.

Lembram-se de eu falar no facto de este cliente ser solteiro? Que diferença poderá fazer? Muita. Enquanto se atrasou, a regra alterada foi a de que, sendo solteiro, teria de conseguir um fiador, o que antes não era necessário. Seria apenas para reforçar e dar mais credibilidade ao seu processo. Se ele se tivesse despachado anteriormente, teria conseguido o dinheiro sem grandes dificuldades e sem necessidade de fiador, pois era um cliente com bons rendimentos.

O grande problema é que, o cliente, por mais que tentasse, não conseguiu ninguém que estivesse disponível para ser seu fiador. Falou com alguns familiares, que de início mostraram alguma disponibilidade mas sem nunca dar a certeza de alguma coisa. Andaram a empatar até que ele se convenceu de que afinal não tinham interesse nenhum em ajudar.

As pessoas, hoje em dia, têm medo de se envolver nesta espécie de “ajuda”, isto porque, fala-se muito em crise e em burlas e em processos de “não cumprimento”, assustando toda a gente.

Sem querer assustar, muito menos deixar a ideia de que “não vale a pena ser fiador” de alguém, por vezes acontecem situações em que, o não cumprimento por parte dos proponentes, acaba por trazer um problema “inesperado” para alguém que depositou a sua confiança noutras pessoas.

Claro que por vezes acontecem imprevistos, tais como doença repentina, acidente, desemprego ou até mesmo a morte de um dos cônjuges. Quando isso acontece, a melhor forma de resolver o problema é sentar á mesa e conversar, mesmo com a instituição bancária, para tentar resolver o dito problema da melhor forma possível para todas as partes, mas tendo sempre em mente que, quem tem a grande responsabilidade de pagar o financiamento é o proponente e não o fiador. O fiador, para o proponente, apenas serviu como garantia para a obtenção desse mesmo empréstimo, acrescentado credibilidade, que de outra forma seria impossível ao cliente conseguir o dinheiro.

Para o banco, o mais importante é reaver o dinheiro mais os juros, do valor que concedeu ao seu cliente. Isto acontece porque, o banco depositou toda a confiança no cliente, baseando-se não só, na sua palavra mas também nos documentos apresentados. Desta forma, acaba por haver um “laço” que os une, banco e cliente, o que pode favorecer outros processos no futuro, ou não, que eventualmente se possam concretizar.

Temos também muitos exemplos de fiadores que nunca tiveram problemas. Os proponentes cumpriram sempre com a sua obrigação, foram responsáveis e é isto que qualquer pessoa tem de ter em mente, sempre que se dirigir a uma instituição bancária para usufruir de qualquer produto que esta tenha disponível.

Portanto, a ilação mais importante a retirar daqui é sem dúvida a rapidez com que os clientes têm andar para fornecer os documentos necessários para o andamento do seu processo e também a responsabilidade que estes têm, perante a banca e os seus fiadores, se for o caso.

About António Bessa
António Bessa é Consultor Financeiro da Decisões e Soluções (Agência de Felgueiras)

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